#criticando - As amizades particulares


Les amitiés Particulières
Direção: Jean Delannoy
França, 1964

★ ★ ★ ★

Baseado no romance do francês Roger Peyrefitte, As amizades particulares traz a história - autobiográfica - de amor entre dois garotos em um colégio católico. Jean Delannoy dirigiu o longa em 1964, que faz pate da Nouvelle Vague - movimento artístico cinematográfico iniciado em fins dos anos 50.
A história começa quando Geroges de Sarre (Francis Lacombrade) inicia seus estudos em um rigoroso colégio católico isolado da cidade. Lucien Rouvère (François Leccia) torna-se seu primeiro amigo no colégio. Georges se sente atraído pelo novo colega, que mantém um relacionamento com um dos outros alunos. É, porém, com Alexandre (Didier Haudepin) um menino de 12 anos, que Geroges terá seus sentimentos correspondidos. Sutilmente, os dois se apaixonam e passam a enfrentar as suspeitas e punições dos padres supervisores, até o desfecho, surpreendente e chocante.
Como pretendo ser breve, vou direto ao assunto. O longa tem qualidades e equívocos bem específicos. A narrativa é decididamente poética. As cenas são poéticas. Os personagens são poéticos. Como exemplos, os encontros dos jovens no viveiro abandonado e as cartas trocadas que caracterizam uma relação pura, idealizada, sublime, em total contraste com o desfecho pessimista, devastador, penalizador. Uma curva perfeita. Destaca-se então, a maneira sincera e natural com a qual o diretor fala sobre a homossexualidade, assunto explorado com receio por alguns ainda nos dias de hoje - quase 50 anos depois. À esse aspecto, soma-se a notória atuação dos jovens protagonistas. Todos no tom certo e destituídos de receios. Uma combinação perfeita, ainda mais se considerarmos a pouca idade dos atores.
Outra característica que se destaca é a direção de fotografia e a montagem. Seguindo os preceitos da Nouvelle Vague, os movimentos de câmera são precisos e ágeis, assim como os cortes secos, acrescentando ritmo à narrativa. Qualidades propostas por um grupo de cineastas, críticos e estudiosos que originariam o movimento. "Apresentar um contorno estético existencial, preocupação filosófica (...) enfatizando os aspectos artísticos do filme, e, no tema, a problemática individual" são as principais características da Nouvelle Vague segundo Guido Bilharinho ("Cem anos de cinema" , 1996, p 89). Tais elementos estão, nitidamente, presentes em As amizades particulares.
Um fator que me incomoda porém, encontra-se, justamente, na própria subjetividade. Se a homossexualidade é mostrada de forma corajosa e natural - ainda que também abstrata, mas compreensível e contextualizada neste caso - a pedofilia acaba por tornar-se velada e demasiadamente abstrata. Então me pergunto: tal abstração não acaba por mascarar os fatos e excluir importantes consequências psicológicas aos personagens e, consequentemente, à história?  Se assim for, a relação dos padres - pedófilos ou não - com os estudantes mereceria um contorno mais definitivo. Afinal, fora a incessante interferência de um dos padres supervisores a responsável direta pelo significativo final trágico - sobre o qual aliás, não exponho interpretações, deixando-as à cargo do espectador. Entretanto, uma outra interpretação pode ser considerada. Como cita Hsu em seu blog Diário de um Cinéfilo em seu comentário sobre o filme, "na época em que foi realizado, a questão da pedofilia não era tão acirrada como hoje, e tudo era visto como uma forma de amor entre pessoas de idade distintas". A observação é válida. Afinal, os jovens protagonistas tinham uma diferença de idade considerável: 12 e 16 anos. Levando em conta tal ponto de vista, o fato do amor ser aceito como natural em pessoas de idades distintas passa a ser, não aceitável, mas compreensível. Mesmo assim, o que continua a me incomodar é a falta de definição. Talvez fosse essa a intenção. Ou talvez seja parte da própria subjetividade. Cabe ao espectador suas conclusões - ou não conclusões.
Poético. Corajoso. Abstrato. Subjetivo. Para o bem e para o mal.




Postado por Danilo Craveiro
Discussão 1 Comment

1 Comentário em: #criticando - As amizades particulares

  1. um ótimo filme que choca no final.

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