#criticando - Gretchen filme estrada


Gretchen filme estrada
Direção: Eliane Brum e Paschoal Samora
Brasil, 2010
★ ★ ★ ★ ★

Hilário. Não há melhor adjetivo para descrevê-lo. Uma promessa. Uma tentativa. Um personagem. Uma câmera. Em alguns, momentos um narrador e em alguns outros apenas a personagem. Uma história que se propõe um ponto de partida. Que anda em círculos e no final não chega a lugar nenhum. Que nada acrescenta. Mas que proporciona, indubitavelmente, uma experiência hilariante. Se falta conteúdo, sobra linguagem – sim, inesperadamente, a linguagem do cinema.
“Gretchen filme estrada” traz o relato de uma figura conhecida da mídia popular brasileira, se posicionando, logo de princípio, como etapa importante da vida da tal personagem: sua última turnê como cantora e sua primeira campanha política. Quem assiste o filme alguns anos após sua realização, já pode imaginar o final da história. Grecthen não desapareceu totalmente da mídia e muito menos se tornou uma figura política de relevância. Temos, portanto, uma promessa narrativa que não se cumpre. Um posicionamento subjetivo originado pelo documentarista ou pelo documentado – ainda não sabemos. Assim sendo, já com uma historieta estruturada, o que sobra entre o princípio e o fim do longa? O que veremos neste espaço de aproximadamente 86 minutos?
Uma personagem brega, marcante, excêntrica. Uma Gretchen tão fictícia que compra o próprio papel como real, e que de fato aparenta ser real. Que repete com inflado orgulho seus feitos descartáveis a qualquer pessoa, mas sim, preenchendo de dignidade sua trajetória. Os elementos que compõem o filme passam então a se relacionar de maneira ainda mais hilária. Colocar a indústria do entretenimento ao lado de política é ingrediente por si só interessante. Acrescenta-se a isso apresentações com playback de uma única música em circos pobres e decadentes, associada à visão dos diretores: dois jornalistas teoricamente não pertencentes ao mundo do show business barato da retratada – uma visão de fora, portanto. A situação é tão surreal que não causa espanto, causa graça. Não uma graça irônica, maliciosa, mas uma graça engraçada mesmo. No determinado momento em que também se mistura religião à receita, o circo parece pegar fogo de vez. Ainda mais surreal, ainda mais hilário. Um documento que diz muito sobre o Brasil, de forma bastante escancarada. Quando nos damos conta disso, ai a história perde um pouco de sua graça: trata-se apenas de mais uma palhaçada que envolve nossa sociedade nesses âmbitos importantes – política, religião e entretenimento.
O que vemos realmente pouco importa. O que acontece pouco acrescenta. O que não quer dizer, porém, tratar-se de um filme desinteressante, ou de um filme pobre em seu formato. Muito pelo contrário. Justamente no formato consiste a riqueza da produção. Senão a riqueza, a possibilidade de ver algo a mais, de discutir alguns conceitos que envolvem um gênero que pode parecer ao mesmo tempo tão preciso e tão incerto.
Segundo Bill Nichols em Introdução ao Documentário (2005) o documentário é “uma representação do mundo em que vivemos. Representa uma determinada visão do mundo, uma visão com a qual talvez nunca tenhamos deparado antes, mesmo que os aspectos do mundo nela representados nos sejam familiares” (p.47). Diante disso, sim podemos colocar “Gretchen filme estrada” como pertencente ao gênero documentário. Alguns fatores, porém, me chamam a atenção.
Em qual vertente se pode encaixar o filme? Certamente o longa se coloca entre o cinema direto norte-americano e o cinema verdade francês. Se o cinema direto é, segundo André Parente em O cinema direto (2000), “um método de filmagem (ausência de roteiro, equipe reduzida, atores não profissionais, som direto, câmera na mão, cenários naturais, etc.) e uma estética, a 'estética do real’ ” (p. 112) e se “o cinema verdade francês acredita que, já no cinema dos primeiros tempos, em A saída dos operários da fábrica Lumiére (1895), alguns funcionários ignoravam a câmera, mas alguns já olhavam para ela com estranhamento. A partir do momento que a câmera ganha o significado social de instrumento de registro, passa a existir a auto-ficção, ou seja, um desejo de modificar, controlar a imagem de si que ficará registrada. É trabalhando e manipulando esse princípio que o cinema verdade atua” segundo Ana Carolina Ornelas no artigo Estudo dirigido sobre o cinema verdade e o cinema direto (2012), pode-se finalmente dizer que o objeto em questão apresenta características de ambas correntes.
Acompanhamos determinado momento da vida da personagem real, Gretchen, através de um ponto de vista intencionalmente impessoal, incorporando os momentos esperados e os inesperados que decorrem neste específico espaço de tempo. Tudo com uma câmera portátil, captação de som direto, iluminação natural, etc. Porém existem também momentos da realidade manipulada. Da auto-ficção. Do documento inventado. Como exemplos, as imagens de estradas cuja narração poética em off situa a personagem principal em alguns fatos históricos, estabelecendo uma relação paralela de acontecimentos, de comparação da autenticidade, da relevância popular nacional da figura representada – a Gretchen. Além dos momentos nos quais a própria pede ao cinegrafista que deixe o recinto, ora por se tratar de uma conversa demasiado pessoal ou, como acontece no final, por desistir de levar o projeto adiante. A partir deste momento então não se vê mais a campanha política da bailarina, apenas suas apresentações circenses.
Chega-se a um ponto importante. Uma quebra na própria narrativa, uma quebra naquela promessa que nos foi feita lá no principio e que sempre pareceu – e de fato foi – uma furada. Assim sendo, de quem é a visão colocada na narrativa desse trecho da vida de Gretchen? Qual a relação exata entre a documentada e os documentaristas? É pensando nessa problemática que me aproximo das observações ainda de Nichols, sobre a ética no documentário: “a maioria dos cineastas age como representantes das pessoas que são filmadas ou da instituição patrocinadora, e não como membro da comunidade, frequentemente surgem tensões entre o desejo do cineasta de fazer um filme marcante e o desejo dos indivíduos de ter respeitado seus direitos sociais e sua dignidade pessoal” (p. 38). De fato, Gretchen acompanha a realização do filme ativamente. O que segundo ela pode ser mostrado é mostrado, e o que não pode não é mostrado. O que sobra para os diretores então? Uma decisão irônica, desleixada, mas que ao invés de denegrir o próprio roteiro o preenche com aquele sentimento de vazio, de ausência. Vemos registros da própria produção do filme, das conversas com os diretores e de cenas pouco relevantes dos bastidores de seus shows. O filme se volta para si mesmo. Nem mesmo a narração se leva a sério em meio a atmosfera tão descabida. O fato acentua o filme e lhe dá uma insignificância simpática. Um tom hilário mesmo. Que combina com aquela personagem de corpo pouco atraente que rebola ao playback de uma música de mais de 30 anos.
Se você procura uma conclusão para tudo isso, simplesmente não existe. E não precisa existir. Afinal, se estamos falando de um gênero cinematográfico que se propõe a mostrar um fato como ele é, por mais irrelevante que este seja, a experiência, desde que se alcance este padrão estético, pode sim ser interessante. E é. Uma experiência hilária. Um filme - como diz o próprio narrador - sobre o absurdo.








Postado por Danilo Craveiro
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